A “matrioska” das eleições!

Cada ato eleitoral contém, em si mesmo, várias eleições! Se isso é verdade para umas eleições legislativas, em que olhamos para o computo geral (quem ganha a quem, onde) e, no final, para as composições de cada bancada (quais os deputados eleitos por partido e círculo) ainda mais verdade é numas eleições autárquicas em que estão em causa 308 concelhos e dentro destes tantas outras freguesias com as suas enormes diferenças.
É por isso que no domingo estaremos todos a ver quem foi eleito não só para a junta de freguesia mais próxima da nossa área de residência, como para o concelho em que aquela se insere, mas ainda outros onde as disputas eleitorais (e os seus resultados) podem ditar leituras mais abrangentes de nível de ilha/regional ou mesmo nacional.
É assim como uma matrioska, em que cada partido tenta que da peça menor à maior do puzzle eleitoral todas se encaixem em prol de uma narrativa que lhe justifique os próximos embates político-partidários.
Nos Açores, mas também no país, a realidade é que a vida está mais facilitada para as coligações de direita. Sendo o PS o partido mais representativo a nível nacional e regional, com resultados históricos em ambos os planos, é aos partidos da direita que se exige que suplantem os fracos resultados de outros tempos. Se assim não for, mais difícil será, a nível regional, dizer que se iniciou um verdadeiro novo ciclo com a derrota eleitoral, tornada em vitória governativa do ano passado, e mais difícil ainda, a nível nacional, argumentar que a mudança está para chegar através da parceria Rio-Chicão (aqui e ali com apêndices de Ventura)!
Mas dentro destas tendências gerais haverá sempre, para direita e esquerda, válvulas de escape! Possibilidades de dizer que nem é preto, nem branco!
Para o PSD se mantiver as maiorias camarárias nas maiores cidades do Arquipélago (Ponta Delgada e Ribeira Grande), pode sempre usar o argumento (já usado em anteriores eleições) de que continua a representar o maior número de açorianos. Pelo seu lado, para o PS Açores, a manutenção do mesmo número de câmaras (ainda que difícil) poderá sempre permitir reforçar legitimamente o argumento de que a realidade política imposta pela coligação negativa das últimas eleições não tem aderência local. Qualquer “descalabro” num ou noutro lado da equação destas premissas valerão à contra-parte um “boost” de energia a caminho do segundo debate do Plano de Orçamento da Região da nova maioria.
E também nesse campo os partidos pequenos têm um papel. Sendo que a maioria deles – PAN, Chega e IL – não têm representatividade autárquica, qualquer voto a mais será ganho (nalguns casos até de 100%, imagine-se!) e permitirá salvar a face.
Mais complicada é a posição de CDS, PPM e BE, por razões diferentes. CDS e PPM, com a honrosa exceção das Velas de São Jorge para o CDS, não foram vistos, tidos, nem achados! Prefeririam conscientemente desaparecer do que confrontar as expectativas de votos residuais em partidos agora, autodenominados, de “poder”. O BE não tem nada específico em jogo, mas quererá manter a sua “voz” nos centros mais urbanos, onde pode continuar a sedimentar bases de apoio futuro.
Há também as questões particulares e, nesse campo, saber que “peso eleitoral” tem o atual líder da bancada parlamentar do PSD Açores e candidato à CMPD não é irrelevante, como não é irrelevante saber como Berto Messias se desenvencilha das confusões do PS local ou, por exemplo, o Presidente da Junta de Rabo de Peixe, face à memória recente da população daquela freguesia perante as cercas sanitárias, entre outras.
Não sendo de apostas, teimaria em achar que não haverá grandes sobressaltos regionais neste domingo. Mas tal como os ventos do norte da europa têm soprado em eleições recentes uma certa brisa progressista e de esquerda, que pode vir a ser confirmada com a eleição capital na Alemanha do mesmo dia, é possível que essa também se mantenha aqui pelo Atlântico Norte!
Até lá o que importa é mobilizar, porque pior que perder é não participar!
FT

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