O que sabemos nós sobre o Afeganistão?
É típico do “comum ocidental”, onde tão humildemente me incluo, assumir com grande prontidão e certeza conclusões sobre os mais variados temas da política internacional assente sobretudo nas evidências e relatos mais recentes, maioritariamente veiculados pelos órgãos de comunicação social que seguimos, uns e outros guiados, eles próprios, pelo nosso gosto ou inclinação ideológica.
Vem isso a propósito do conjunto
de narrativas que fomos construindo mais recentemente sobre o Afeganistão no
encalce da saída apressada e desastrada dos países da NATO que, liderados pelos
EUA, há anos mantinham presença ali.
Esses relatos tendem a simplificar
a realidade do país entre o desastre da saída (comprovadamente) e o destino
selvático a que invariavelmente estarão os afegãos condenados no imediato e no
futuro às mãos do regime Taliban recentemente instalado.
Longe de mim desculpar, de
qualquer forma ou feitio, aqueles que são os primeiros sinais da “nova
governação” dos velhos senhores e que, no que concerne, entre outros, aos
direitos das mulheres e de liberdade de imprensa, são já a confirmação dos piores
dos nossos fundados receios. Nada disso! Acho que merecem condenação, atenção e
ação por parte da comunidade internacional.
Mas aquilo que me ocupa é
sobretudo a necessidade de entendimento para além da evidência base.
Aquilo que alguns órgãos de
comunicação internacional têm exposto (com particular destaque para os dos
próprios EUA), na tentativa de perceber quer o que ali falhou para uma tão
rápida e descomplicada tomada de poder pelos novos Taliban, quer o que
realmente foi feito pelas forças da coligação durante 20 anos, é uma realidade hiper complexa,
assente não em 20 anos de conflito, mas em mais de 50, em que a realidade de
Cabul é fundamentalmente diferente da dos meios rurais (os mais difíceis de
controlar pela Coligação, porque assentes em códigos tribais antigos e
realidades muito pouco entendíveis para “ocidentais”) e em que os afegãos (o
povo) foram A VÍTIMA permanente no meio do fogo cruzado de interesses pontuais
ora dos soviéticos, ora dos mujahidins, ora dos Taliban, ora de senhores da
guerra ou mesmo governantes regionais e locais empoderados pelas nossas
próprias forças ou mesmo de todos à mistura.
Ao longo destes 20 anos, por
desconhecimento e falta de atenção, a maioria de nós acreditou que, com maior
ou menor dificuldade, os países de NATO, os nossos Estados, estavam ocupados a
ajudar a erguer um país funcional, democrático, respeitador dos direitos de uns
e outros a caminho de um são desenvolvimento social e económico, ainda que
assente numa realidade muito própria e com bolsas de contestação violenta,
nomeadamente pelos Taliban
Esta peça
do New Yorker é, entre outras que se têm publicado recentemente, um retrato
incrível, feito através dos olhos de mulheres do meio rural afegão, em como a
única constante destes 20 anos parece ter sido a perda, ora às mãos de uns, ora
às mãos de outros. Uma demonstração em como o Ocidente se enredou em jogos
complicados de favorecimento, corrupção e ajudas a personagens locais duvidosas
na perspetiva simplista do mal o menos.
Ora, nada do que é simples se
aplica à vida daqueles homens e mulheres que, durante toda uma vida não só
tiveram de lidar com conflitos, opressão/supressão de direitos e miséria
permanente, como estiveram sempre presos entre escolher o mal ou o pior.
Isso, só por si, deve fazer-nos
refletir, enquanto ocidentais, e reconhecer, com vergonha e humildade, os erros
que cometemos para que realmente se possa agora almejar ajudar os afegãos, e
não os seus pretensos donos, sem complacências quanto aos novos governantes,
mas sem entregas à corrupção e banditismo. FT
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