O mundo não tem de ser assim
Com a chancela da Casa das
Letras e da autoria dos jornalistas Pedro Latoeiro e Filipe Gonçalves, este
é mais um exercício biográfico que 2021 trouxe. Desta vez, o biografado é o
antigo Primeiro-Ministro e atual Secretário-Geral das Nações Unidas, António
Guterres. O livro não pretende ser uma biografia exaustiva do ex-líder
socialista, mas sim, um retrato da sua biografia política.
António Guterres pertence a uma
rara estirpe política que vê – e efetivamente tem - o mundo inteiro como seu
campo de ação. Desde cedo, escapou à lógica paroquial de se sujeitar às
fronteiras que o seu mundo - político e geográfico – impunha.
Guterres é um homem de compromissos,
um construtor de consensos e de soluções, cuja mundividência contrasta, de modo
absoluto e gritante, com o tempo em que o País se afunilava na lógica do orgulhosamente
sós construída, aliás, à imagem e semelhança de um chefe de governo que
nunca passou de Sevilha. Até nisto, António
Guterres é a antítese deste Portugal pequenino, colonial e
fechado sobre si próprio.
Desde os tempos de estudante, no Liceu Camões, em Lisboa, passando pela Juventude Universitária Católica, pelo brilhante percurso no Instituto Superior Técnico, onde figura no Quadro de Honra, até ao Grupo da Luz, aos amigos mais próximos, à sua entrada como militante do PS, a 30 de Abril de 1974, no dia em que assinalava o seu 25º aniversário, até ao confronto com Soares, mítico fundador do PS, às históricas conspirações do ex-secretariado que promoveu no seu célebre sótão, passando, obviamente, pelos encontros e, posteriores, desencontros com Jorge Sampaio, bem como pela eleição como Secretário-Geral do PS e, depois, Primeiro-Ministro de Portugal, o livro conta, ainda, com vários depoimentos de personalidades nacionais e internacionais.
“O Mundo não tem de ser assim – biografia de António Guterres” mostra, ainda, a faceta profundamente católica, ilustrada, aliás, com a Parábola dos Talentos que, desde cedo, inspirou Guterres a querer contribuir para a construção de um mundo melhor e que, porventura, também o motivou a, graciosamente, ir dar explicações para bairros pobres de Lisboa depois de, na sequência de um mau resultado nas eleições autárquicas de 2001, surpreender o País ao demitir-se das funções de Primeiro-Ministro e abandonar a vida política doméstica.
A biografia do português com o
mais notável percurso político internacional – recorde-se que, para além das atuais
funções, Guterres foi Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados e,
antes, já tinha, entre outras funções, sido Presidente da Internacional
Socialista – não contou, de início, com o interesse e a colaboração do biografado,
circunstância que, após muita insistência, acabou, felizmente. por se alterar.
Com pouco mais de 640 páginas, “O
Mundo não tem de ser assim – biografia de António Guterres” tem um vasto
leque de histórias e episódios marcantes, quer no plano político interno, quer no
plano internacional, para além de também desvendar um pouco o véu sobre o
modo como decorreu o processo que levou à bem-sucedida candidatura a
Secretário-Geral das Nações Unidas.
Da sua leitura, fica reafirmada a ideia de um Político por inteiro, um Humanista convicto, um trabalhador incansável, com um domínio invulgar de temas e com um manancial de conhecimentos transversais ao alcance de muito poucos.
António Guterres é, verdadeiramente, um Globetrotter
da política e do humanitarismo à escala planetária. E, já agora, é, de facto,
uma sorte e um orgulho que seja português.
AR

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